.png)

Do croqui ao prompt: O uso da IA no setor criativo da moda
Como a inteligência artificial está transformando o processo criativo da moda.
Por Cardan Aleixo, Luiz Octavio e Raika Santos
uito antes da escolha dos tecidos ou do primeiro ponto de costura, nasce uma ideia. Durante séculos, essa ideia ganhou forma pelas mãos dos estilistas, que transformavam referências, inspirações e experimentações em desenhos capazes de orientar toda a criação de uma coleção: os croquis.
Hoje, esse mesmo processo passa por uma transformação silenciosa. Além do lápis e do papel, poucos comandos digitados em uma tela são capazes de gerar, em segundos, dezenas de propostas visuais. O desenho continua sendo um dos primeiros passos da moda. Mas já não pertence exclusivamente ao olhar humano.
Essa mudança ultrapassa o ateliê. Ela chega às passarelas, às campanhas publicitárias, aos estúdios fotográficos, às agências de modelos e até aos debates sobre direitos autorais. Ao mesmo tempo em que promete acelerar processos, reduzir custos e ampliar possibilidades criativas, a inteligência artificial levanta dúvidas sobre autoria, transparência e o lugar do trabalho humano em uma indústria construída, historicamente, sobre a criatividade. Para compreender por que um simples prompt passou a dividir espaço com o croqui tradicional, é preciso voltar alguns séculos e entender como a moda chegou até aqui.
M
Como a moda chegou até aqui
relação entre moda e tecnologia não começou com a inteligência artificial. Ao longo da história, diferentes transformações alteraram a forma de produzir, consumir e compreender o vestuário. Para entender o impacto atual da IA, é preciso observar como a própria moda foi se reinventando ao longo dos séculos.
Segundo o historiador Paulo Debom, no artigo intitulado "Moda: Nascimento, conceito e história" afirma que embora existam diferentes interpretações sobre a origem da moda, sua consolidação pode ser compreendida a partir de três momentos históricos: a Era Aristocrática, a Moda dos Cem Anos e a Moda Aberta. A Era aristocrática é marcada pelo uso de roupas baseadas no seu círculo social mostrando sua ancestralidade, sendo diferente para cada grupo e não atingindo as classes mais baixas.
Na fase da Moda dos Cem Anos, essa época é marcada por duas inovações, a chegada da Alta Costura pelo Charles Frederick, com a fabricação de roupas feitas manualmente para apenas uma pessoa, tendo desfiles com modelos, que tinham o corpo parecido com o do dono da peça e a produção de roupas semelhantes com a dos aristocratas por um preço mais baixo.
A Moda Aberta inicia a época das roupas de Prê-à-porter, que são vestimentas produzidas em grande quantidade e não são confeccionadas para uma única pessoa, sendo atualmente as roupas que encontramos em lojas com tamanhos entre P, M e G, podendo variar para outras medidas. Esse período marca a virada de quem dita o que é moda, não sendo mais definido por um grupo seleto de estilistas.
Entretanto, atualmente esses três períodos não incluem o cenário contemporâneo, que é a chegada da tecnologia digital na área criativa da moda, que é definida por alguns marcos, como a imersão da moda em meios virtuais como a criação de NFT, um certificado digital de autenticidade e propriedade. Exemplo disso, foi a Gucci, uma casa de moda luxuosa italiana, que criou obras virtuais e disponibilizou no site SuperRare e fez uma venda de algumas coleções.
Claro que, olhando agora, essa tecnologia está tão difundida no nosso cotidiano que se torna quase impossível imaginar uma realidade sem ela. Há pouco mais de 6 anos atrás, o mundo passava por sua maior crise epidêmica e junto dela tivemos um marco tecnológico. desse século as marcas já faziam suas parcerias para dar ao consumidor uma opção digital. A pandemia de Covid-19 também contribuiu para acelerar a digitalização da indústria da moda. Com os desfiles presenciais cancelados, marcas precisaram encontrar novas formas de apresentar suas coleções. Como a croata marca Tribute, que vendia para seus clientes imagens digitais deles utilizando suas roupas para fotos nas redes sociais.
Esse movimento também se refletiu em outros ambientes digitais. Nos jogos eletrônicos, roupas e acessórios virtuais deixaram de ser apenas elementos estéticos para se tornarem parte da identidade dos personagens e, em muitos casos, referências para a própria indústria da moda. Um bom exemplo disso pode ser observado em produções como o J-RPG Metaphor: ReFantazio, cujo design de figurinos demonstra como o vestuário também contribui para a construção da identidade visual e narrativa dos personagens.
A

Design da personagem July, roupa inspirada no estilo Swinging London (Imagem: Artbook - Metaphor: ReFantazio)
Quando a inteligência artificial entra em cena
epois de décadas incorporando novas tecnologias aos processos de produção, a moda passou a conviver com uma transformação diferente. Em vez de apenas acelerar etapas da fabricação ou facilitar a distribuição de produtos, a inteligência artificial começou a ocupar um espaço que sempre foi considerado essencialmente humano: o da criação.
Em 2023, essa mudança ganhou um símbolo. A AI Fashion Week, realizada pela Maison Meta em Nova York, apresentou coleções concebidas com auxílio de inteligência artificial e submetidas à avaliação de jurados e do público. Os projetos vencedores deixaram de existir apenas no ambiente digital e foram produzidos fisicamente, aproximando o universo dos prompts das passarelas tradicionais.
Veja o vídeo para entender mais:
D
O evento parecia um experimento isolado. Recentemente ocorreu a Semana da Alta Costura que tinha como tema Primavera-Verão, os entusiastas da moda foram apreciar um desfile feito pelo designer Alexis Mabille e estando lá no momento se depararam com um desfile produzido por IA e com modelos avatares expostas em uma tela, esse é um dos primeiros casos que expõe que a IA está se tornando presente tanto nas fast fashion (roupas produzidas em grandes escalas e de forma acelerada) e no ramo da Alta costura que prioriza a fabricação e todo o processo criativo produzido a mão e de forma autêntica.
A presença da IA, entretanto, vai muito além das passarelas. Hoje, ferramentas capazes de gerar imagens, testar modelagens, simular caimento de tecidos e criar experiências de compra fazem parte da rotina de diferentes segmentos da indústria
.
Ferramentas que já fazem parte da moda:
A MidJourney é uma ferramenta que através de um prompt (comando) consegue criar uma imagem ou vídeo em uma boa qualidade.
A DressX é uma plataforma que com a ajuda da IA consegue com que o usuário vista roupas virtuais em realidade aumentada ou envie fotos para que a ferramenta ajuste as peças ao seu corpo, serve mais para quem não consegue ir até uma loja física e experimentar a roupa e quer saber como ficaria.
O IPaper é um site que converte catálogos, panfletos e brochuras de produtos em PDF´s e é interativo, tendo link nessas produções que direcionam para os sites de vendas oficiais das marcas.
Após uma análise dessas ferramentas nota-se que a IA facilita a vida dos profissionais na parte publicitária e comercial, mas que gera o debate de como o uso dessa ferramenta na parte criativa denota como a fonte dessa plataforma é a arte de outros criadores e isso pode produzir situações éticas, como o plágio e o uso indevido da imagem de alguns modelos ou pessoas anônimas.
Criação, design e IA
primeiros registros de ilustrações de vestuário tinham função documental, registrando costumes e formas de vestir de diferentes sociedades.
OS

Cena romântica, pintada por Carlos Julião, in CUNHA, 1940. Aquarela, 38,5X27,9 s.d. (c.1780).
No século XIX, Charles Frederick Worth incorporou os desenhos ao processo criativo da alta-costura. E assim, décadas depois, enquanto softwares de modelagem digital passaram a substituir parte do trabalho manual nos ateliês, a inteligência artificial representa mais um capítulo nesse processo de evolução, modificando não apenas as ferramentas utilizadas, mas também a maneira como essas ideias são concebidas.
Essa mudança pode ser percebida ao comparar um croqui tradicional com uma imagem produzida por inteligência artificial. Enquanto o croqui tradicional carrega decisões tomadas durante o próprio processo criativo, imagens produzidas por inteligência artificial apresentam acabamento refinado desde o primeiro resultado. Em poucos segundos, um único comando pode gerar dezenas de interpretações para uma mesma ideia. A velocidade impressiona. Mas ela também desloca uma pergunta para o centro do debate: se qualquer pessoa pode produzir uma imagem em instantes, o que continua diferenciando o trabalho do designer?
Croqui desenhado à mão (à esquerda) e versão criada com inteligência artificial (à direita). Foto: Instagram/@escolademodaestilo.
Para a estilista Giovana Crosara, fundadora da marca GIC, a resposta continua no processo criativo. Embora utilize ferramentas digitais, como o Audaces, para graduação de moldes, planejamento da produção para evitar o desperdício de tecido e organização de referências, a criação das peças ainda começa de maneira artesanal. A modelagem piloto é feita manualmente, enquanto a inteligência artificial funciona como apoio para pesquisas, desenvolvimento de roteiros e levantamento de inspirações. Na avaliação da estilista, a inovação permanece ligada ao "toque humano", pois a ferramenta apenas replica o que já existe em sua base de dados, mas não cria experiências próprias.
“Eu acho que a IA não substitui a gente, mas eu não acho que ela não possa criar. Ela sempre vai criar coisas que já existem; ela é alimentada por informações já existentes, por coisas que o humano já pensou. Então, acho que é muito difícil ela inovar e fazer uma coisa diferente, descritiva e fora do padrão; é em relação ao que realmente o humano pode pensar”, argumenta Crosara.
Essa percepção de Giovana conversa em partes com a visão de Isley Borges, jornalista e professor no curso de Design de Moda na ESAMC. Para ele, a inteligência artificial funciona como uma grande aliada na ampliação das possibilidades do processo criativo e reduz o tempo gasto em tarefas operacionais, mas não substitui a bagagem cultural, vivências e capacidade de interpretar o mundo. Em vez de ocupar o lugar do designer, a IA torna-se uma ferramenta que potencializa ideias, desde que exista alguém capaz de formular as perguntas certas e selecionar criticamente os resultados obtidos.
“Nós temos que pensar em alfabetização midiática [...] de que maneira vamos educar essas pessoas para fazer um uso estratégico [...] pensar de maneira crítica, mas não com o pensamento do século XIX.” afirma Borges.
Como podemos perceber a IA acelera pesquisas, amplia possibilidades visuais e reduz etapas do desenvolvimento de uma coleção. Ainda assim, as entrevistas realizadas para esta reportagem apontam para uma mesma direção: a tecnologia reorganiza o processo criativo, mas não elimina a necessidade de repertório, experiência e interpretação, elementos que continuam dependendo de quem está por trás do prompt.
Apesar das possibilidades, especialistas alertam para os limites desse avanço. Em entrevista à Época Negócios, a empresária, diretora criativa e pesquisadora Olivia Merquior afirma que a inteligência artificial representa um importante recurso para prever demandas, reduzir desperdícios e otimizar processos produtivos. Entretanto, quando utilizada como principal fonte de criação estética, a tecnologia tende a reproduzir padrões presentes em seus bancos de dados, favorecendo tendências já consolidadas em vez de propostas verdadeiramente inovadoras. A eficiência, nesse caso, pode caminhar ao lado da padronização.
Portanto, mais do que substituir o croqui tradicional, a inteligência artificial inaugura uma nova etapa na história do design de moda. O desafio agora é compreender como ambas as formas de criação podem coexistir. Afinal, se a tecnologia já participa da concepção das roupas, seus impactos ultrapassam os bastidores dos ateliês e alcançam também campanhas publicitárias, editoriais e a própria imagem de quem trabalha na indústria da moda.
IA no mercado editorial
té pouco tempo, abrir uma revista de moda significava encontrar modelos, fotógrafos e equipes criativas responsáveis por construir cada imagem publicada. Em 2025, porém, leitores da edição impressa da Vogue se depararam com uma campanha da Guess estrelada por uma modelo criada por inteligência artificial. A personagem nunca existiu, nunca entrou em um estúdio fotográfico e nunca vestiu as roupas que promovia, mas sua aparência era suficiente para convencer parte do público de que se tratava de uma pessoa real. O episódio reacendeu uma discussão que já vinha ganhando espaço na indústria: afinal, qual é o lugar dos profissionais humanos quando algoritmos também passam a ocupar as páginas da moda?
A

Divulgação: Gentle Monster
A utilização de imagens produzidas por inteligência artificial deixou de ser uma experiência isolada e passou a integrar campanhas publicitárias, editoriais e estratégias de comunicação de diferentes marcas. A tecnologia permite criar modelos virtuais, alterar cenários, simular sessões fotográficas e desenvolver campanhas inteiras sem a necessidade de deslocamentos, estúdios ou parte da estrutura tradicional de produção. Para empresas, isso representa redução de custos e maior agilidade. Para profissionais da moda, entretanto, inaugura uma série de questionamentos sobre autenticidade, transparência e valorização do trabalho humano.
A campanha da Guess não foi um caso isolado. Nos últimos anos, marcas passaram a utilizar imagens geradas por inteligência artificial em campanhas, editoriais e catálogos digitais. Para empresas, a mudança representa redução de custos e maior rapidez na produção. Para quem trabalha na indústria, porém, ela modifica relações construídas há décadas entre modelos, fotógrafos, maquiadores, stylists e diretores criativos.

Divulgação: Gentle Monster
Na avaliação de Matheus Dellaveck, diretor da agência de modelos Formation, uma das mais relevantes do Triângulo Mineiro, analisa como a falta de regulamentação da IA tem um impacto na cadeia criativa, a inteligência artificial dificilmente substitui aquilo que torna uma campanha memorável. Durante a entrevista concedida para esta reportagem, ele destacou que um ensaio de moda vai muito além da aparência de quem está diante da câmera. Expressão corporal, improviso, interação com o fotógrafo e interpretação do conceito criativo são elementos construídos no momento da produção e que ainda dependem da experiência humana.
Segundo Dellaveck, a substituição de modelos por imagens geradas por inteligência artificial afeta muito mais do que quem aparece diante das câmeras. Para ele, campanhas que deixam de contratar profissionais para reduzir custos comprometem toda uma cadeia produtiva formada por fotógrafos, maquiadores, stylists e cabeleireiros.
.png)
Eu sou a primeira pessoa a levantar a bandeira e ir contra qualquer marca que queira usar IA em vez do modelo real.
.png)
Nesse cenário, a IA tende a funcionar como ferramenta de apoio, mas não como substituta da relação criativa estabelecida entre equipe e modelo.
A discussão torna-se ainda mais delicada quando envolve o uso da imagem de pessoas reais. O modelo Heryck Ramidien relatou à reportagem que descobriu ter sua imagem modificada por inteligência artificial sendo utilizada por uma marca sem autorização. Embora o nome da empresa não tenha sido divulgado, o episódio evidencia um dos principais desafios da popularização dessas ferramentas, a facilidade com que rostos podem ser manipulados, recriados ou incorporados a campanhas sem o consentimento dos profissionais envolvidos. O caso ultrapassa a inovação tecnológica e passa a envolver questões relacionadas ao direito de imagem, à ética e à confiança entre marcas e trabalhadores do setor.

Taís Araújo fotografada para VOGUE RIO em abril de 2022 - Divulgação: Vogue Brasil
Apesar dessas resistências, a Olivia Merquior acredita que o maior potencial da tecnologia está na otimização de processos, na análise de dados e no planejamento estratégico. O desafio surge quando a busca por eficiência passa a substituir a criatividade, reproduzindo padrões já consolidados em vez de estimular novas formas de expressão.
Nesse contexto, a IA amplia possibilidades, mas também exige um olhar crítico para que inovação não se transforme em padronização.“Quando voltei, senti que precisávamos falar sobre isso melhor, porque ficou muito claro para mim que a tecnologia estava se tornando cada vez menos invisível e começando a entrar no monitoramento biométrico. Comecei a ver que existia um fluxo da tecnologia adentrando o vestuário por razões óbvias: eles entenderam o que fazemos na moda, de criar sentido e storytelling, fazer com que o público se afeiçoe aos objetos; e porque nossa biometria comunica muito mais um ambiente conectado do que apenas um like, o batimento cardíaco na hora que você se depara com algum acontecimento tem várias informações que eles estão ávidos para ter e não precisar te induzir a fazer uma ação no celular”, afirma em entrevista à Harper's Bazaar.
As preocupações observadas entre profissionais também aparecem em pesquisas acadêmicas. Um estudo publicado na revista AI & Society mostrou que pessoas tendem a considerar obras atribuídas a seres humanos mais profundas e valiosas do que aquelas identificadas como produzidas por inteligência artificial, mesmo quando a qualidade visual é semelhante. Os pesquisadores sugerem que o público não avalia apenas a imagem final, mas também a história, o esforço criativo e a intenção por trás da obra. Aspectos fortemente associados à autoria humana.
.jpeg)
Infográfico sobre a reação das pessoas ao uso de IA (Imagem produzida no Canva)
O debate sobre modelos criados por inteligência artificial costuma começar com inovação, produtividade e redução de custos. Para profissionais como Heryck Ramidien, porém, ele termina em uma pergunta muito mais concreta: quem responde quando uma imagem deixa de representar a realidade e passa a circular sem autorização? A resposta para essa questão já não depende apenas da tecnologia, mas também das leis que regulam o uso da imagem, da autoria e da inteligência artificial.
Ameaça ou ferramenta?
impactos da inteligência artificial sobre a moda já deixaram de ser apenas uma hipótese. De acordo com o relatório The State of Fashion 2026, produzido pela McKinsey & Company em parceria com o Business of Fashion, a tecnologia deve transformar diferentes etapas da cadeia produtiva, alterando desde os processos criativos até as funções desempenhadas pelos profissionais do setor. A partir desse cenário, o debate deixa de ser apenas tecnológico e passa a envolver escolhas feitas por empresas, consumidores e trabalhadores da indústria.
A revolução da IA na moda tornou-se uma realidade iminente, no qual a indústria está se redefinindo para se adaptar a essa tecnologia, a cada momento há o investimento em novas tecnologias e parceria com as Big Techs, que podem acelerar processos de produção, o que leva a uma eficiência maior.
Porém, o principal ponto a ser analisado é se essa ferramenta pode se tornar uma aliada ou uma possível ameaça. De primeiro modo, muitas empresas e startups estão investindo de forma proativa na tecnologia, como a ferramenta de IA fashionINSTA, que permite transformar esboços em moldes digitais em 10 minutos, isso em comparação a um processo que demandava 8 horas para a confecção, o que leva a reduzir os padrões de criação em 70%.
OS

Capa digital IA março 2023 por Hick Duarte — Divulgação: Vogue Brasil
O destaque dessa eficiência também vem se tornando presente em campanhas de moda, ao usar modelos de IA que podem gerar economias para as marcas nas sessões de fotos e casting para desfiles, eliminando os gastos com agências, estúdios e viagens. Uma questão a ser visto nessa abordagens é a análise de dados dos consumidores que já usaram a IA para o auxílio de compras.

Pesquisa sobre o uso da IA na compra - Imagem: Infográfico Estadão
Consequentemente a indústria da moda é caracterizada pela Fast Fashion, que por sua vez tem adicionado a IA na sua produção, desde a montagem de croqui e até mesmo em análise de tendência e o uso de modelos de IA para propagandas. Ela se baseia em produções em larga escala de roupas feitas com materiais sintéticos, como o poliéster, e outros produtos químicos. Essas roupas têm uma vida útil curta e são frequentemente descartadas, contribuindo para a poluição do meio ambiente. Um exemplo disso é o impacto ambiental causado pelas toneladas de roupas descartadas no deserto do Atacama, no Chile. Por um lado, a produção dessas roupas levanta questões sobre os direitos trabalhistas, como o desabamento do edifício Rana Paza, que ocorreu em 24 de abril de 2013, na periferia de Daca, no Bangladesh, e resultou em 1.131 mortos, e isso é um caso emblemático em como o consumismo afeta a moda.
Embora a fast fashion seja vista como uma vilã, é importante lembrar que ela também permite que muitas pessoas comprem roupas acessíveis, algo que ainda é um problema para a indústria da moda.
Ainda assim, o dilema ético é algo que surge nesse cenário, uma vez que, para manter a confiabilidade. De acordo com a MetaModels, 76% dos consumidores da Fast Fashion ainda consideram fotos com modelos humanos mais úteis do que aquelas produzidas por IA, o que implica diretamente nas decisões de compra. O modelo transmite emoção e o caimento real do tecido, algo que a IA ainda não é capaz de reproduzir completamente.
Outro ponto a se pensar é a representação, já que muitas das vezes a IA reproduz tendências e estereótipos de beleza, de acordo com Tarcízio Silva com a sua pesquisa “Racismo Algoritmo” o preconceito se espalhou pela internet de forma avassaladora, e com o avanço das tecnologias, surgiram novas formas de comunicação e expressões digitais, incluindo discursos que reproduzem estigmas, racismo e ódio. Nesse contexto, o racismo algorítmico se torna um tema importante para esta discussão, pois está presente em diversas áreas do conhecimento.
A inteligência artificial, por exemplo, é alimentada por bancos de dados e imagens, que são selecionados por profissionais de diferentes áreas, como estatística e gestão da informação. No entanto, esses dados podem conter preconceitos e discriminação social, tornando as tecnologias não neutras ideologicamente.
Dessa forma, a IA prioriza padrões brancos, jovens e magros, o que pode reforçar uma representatividade ainda limitada na moda. Nesse contexto, a tendência observada por empresas do setor é utilizar a tecnologia como uma ferramenta de apoio, e não como substituição completa do trabalho humano. Segundo a MetaModels, um modelo híbrido tem se mostrado mais eficiente, utilizando imagens geradas por IA em catálogos de grande volume e conteúdos para o comércio eletrônico, enquanto campanhas publicitárias, editoriais e produções voltadas ao mercado de luxo continuam priorizando modelos reais pela autenticidade e conexão emocional que estabelecem com o consumidor.
Contudo, a inteligência artificial também vem sendo utilizada para tornar a indústria um pouco sustentável. As ferramentas capazes de prever a demanda e calcular com maior precisão o consumo de tecidos contribuem para reduzir desperdícios durante a etapa de modelagem e produção das peças, mas não significa que não terá um impacto ambiental direcionado ao uso de água que a IA opera para funcionar. Entretanto, o avanço dessas tecnologias também amplia debates sobre propriedade intelectual, autoria de criações desenvolvidas com IA e a necessidade de transparência com os consumidores. Dessa forma, os dados já supracitados apontam que uma parcela significativa do público deseja saber quando imagens ou campanhas foram produzidas por inteligência artificial, visando que as marcas expliquem o seu uso de forma adequada.
Se a inteligência artificial amplia possibilidades criativas e produtivas, também amplia responsabilidades. Questões sobre autoria, uso de imagem e propriedade intelectual deixam de ser discussões hipotéticas e passam a fazer parte do cotidiano da indústria da moda.
Relações jurídicas
uso da IA na área criativa nos traz um questionamento: Utilizar essa ferramenta para a produção de roupas ou desfile é plágio? Para responder essa pergunta é necessário compreender o que a lei nos diz.
A regulamentação dos direitos autorais entende-se que obras autorais são:
Art. 7º São obras intelectuais protegidas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro(Brasil, 1988, art.7)
Esse artigo garante os direitos de qualquer autor que tenha produzido ou irã produzir qualquer material, será protegido também pelos direitos morais e patrimoniais, que diz que sua obra sempre será referenciada e nunca pode ser mudada sem sua permissão e a patrimonial possui um prazo de 70 anos após a morte do criador que diz que ele e seus herdeiros pode ter ganho financeiro sobre essa obra, depois desse período a produção será de domínio público, em que qualquer pessoa pode utilizar essa obra para meios comerciais, mas sempre precisa referenciar o autor.
Portanto, qualquer ato que infrinja esse artigo estará cometendo uma violação dos direitos autorais, mas para que isso se torne jurídico é necessário que o autor daquela obra obtenha uma patente sobre e precise seguir as três regras estabelecidas: novidade, atividade inventiva e aplicação industrial.
Abrangendo a moda, existe um área do direito chamada Fashion Law que utiliza leis já criadas para proteger os direitos de marcas e pessoas, tendo a Lei dos direitos autorais, a Lei de propriedade industrial, que salva as criações inovadoras de desenho, marcas e indicações geográficas, o Direito do consumidor que impede a concorrência injusta e as Leis trabalhistas e ambientais que garante a proteção dos trabalhadores sobre um ambiente seguro.
Algumas marcas possuem suas inovações patenteadas para que o usuário as identifique apenas por um simples detalhe como é o caso da marca Christian Louboutin com seus saltos altos que possuem uma sola vermelha.
Mas há situações que não são apenas aplicadas aos direitos autorais, as que fazem parte da LGPD(Lei de proteção de dados), pois após uma entrevista com o modelo Heryck Ramidien foi apresentado uma situação de incômodo na qual uma marca, que não é citada o nome, utilizou de forma indevida sua imagem e fez o uso da IA para modificações.
A LGPD garante a toda pessoa que está no país os direitos fundamentais a liberdade e privacidade, então o uso indevido de sua imagem é uma violação dos seus direitos, portanto nessa situação é cabível um processo, entretanto como devemos lidar em uma situação que a IA utilizou da sua imagem?
Atualmente não existe uma regulamentação sobre as produções de IA, mas a junção de algumas leis auxilia na proteção dos seus dados. Essa ferramenta faz parte do nosso dia e temos que aprender a lidar com ela, nos auxiliando ou não.
Por isso, como proposta de solução é necessário que seja criado uma regulamentação sobre o uso da IA não apenas com foco no ramo da moda, mas em relação a tudo que está na internet. Nessa regulamentação é preciso que haja leis que indiquem que caso uma pessoa identifique uma produção de IA, utilizando o seu rosto para fins comerciais ou não, o indivíduo que está sendo lesado pode recorrer na justiça com a apresentação de provas deste acontecimento da violação dos seus direitos.
Além disso, é necessário incluir uma lei que expõe quais são os limites do uso dessa ferramenta, que para determinados processos sejam feitos por uma pessoa para manter a autenticidade do produto e indicar em produções editoriais a utilização da IA, um exemplo é a cidade estadunidense, Nova Iorque, que criou uma legislação para agências e mídias que é preciso informar explicitamente o uso de IA sendo para vídeo ou imagem.
Dessa maneira cria-se leis mais rígidas que garantam os direitos de todos os cidadãos, para evitar que eles não passem por situações de humilhação, indevidas ou que induzem a um outro entendimento, como o uso de modelos avatares, que não verdadeiros, mas que passem o sentimento de que é uma pessoa.
Com isso é indispensável uma regulamentação, pois atualmente estão ocorrendo casos de uso de deep fakes ou IA para criação de imagens, em que apresentam o indivíduo em uma situação nunca feita. Sendo de interesse público e responsabilidade do governo ações sobre esse uso.
Durante séculos, uma coleção começou com um croqui. Hoje ela também pode começar com um prompt. O uso da IA representa a facilidade e a presença de novos caminhos, principalmente em um momento tão imediatista quanto o capitalismo hoje pede, essa ferramenta auxilia nesse processo, reduzindo a produção sem necessidade de algumas peças, mas a IA implica em algumas questões éticas como direitos autorais, uso de imagem e questões sociais, como a do racismo algoritmo. Entretanto muito dessas questões podem ser resolvidas em tribunais, mas que mesmo que haja leis, denota um processo exaustivo e complexo, pois a IA junta várias referências, não apenas uma. O que nos traz um questionamento final, mesmo com todos os fatos apresentados, essa ferramenta mais atrapalha do que ajuda?
onfira nossa revista: